Judiciário investe no combate a preconceitos

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Mirian, 39 anos de idade, é loira e tem os olhos verdes. Já Camile, 9 anos de idade, é negra e tem o cabelo crespo. A diferença com relação à aparência, entretanto, não foi nenhum empecilho para que a candidata à mãe escolhesse a então candidata à filha. Ela e o marido Milso, de 55 anos de idade e também da cor branca, não tiveram dúvidas quando foram apresentados à menina, na época com dois anos e três meses de idade. Aquela criança de fato era a filha por que eles tanto ansiavam. “Costumo dizer que nós fomos adotados por ela”, diz Mirian, ainda embevecida.

O Brasil comemora neste sábado (25/5) o Dia Nacional da Adoção, felizmente contabilizando cada vez mais encontros como o citado acima. O Cadastro Nacional de Adoção (CNA), gerido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), registrou, em maio deste ano, elevação de 3,4% no número de pretendentes indiferentes à raça, em comparação com o mesmo mês do ano passado. Mas bebês, preferencialmente do sexo feminino e da cor branca, continuam ainda a ser o perfil exigido pela grande maioria dos pretendentes a pais adotivos no País.

De acordo com levantamento de maio deste ano, 91,13% dos inscritos no CNA declararam aceitar crianças brancas. Outros 64,88% manifestaram a preferência pelas crianças pardas. Já com relação às crianças da cor negra, o número de interessados foi de apenas 37,57%.

O CNA aponta a resistência dos candidatos a futuros pais com relação a diversos outros aspectos. No que diz respeito a grupos de irmãos, por exemplo, apenas 18,97% dos candidatos se mostraram abertos a esse tipo de adoção. E no que se refere a crianças com mais de 6 anos de idade, o percentual de interessados não chega a 4%. Esse é o grande “calcanhar de Aquiles do cadastro”, pois essa restrição é a maior responsável pelas histórias dramáticas de crianças que se tornam adolescentes e vivem toda a infância dentro de abrigos.

O fato é que a maior parte das crianças e dos adolescentes atualmente nos abrigos não atende ao perfil almejado. Por isso, existem muito mais pretendentes do que crianças aptas a serem adotadas. Nesse mês, o CNA registrou 29.440 candidatos contra 5.426 crianças e adolescentes aptos à adoção. A proporção é de 5,43 interessados para cada criança ou adolescente à espera de nova uma família.

Adoção tardia – Ciente da necessidade de mudar essa realidade, o CNJ tem incentivado cada vez mais os tribunais de Justiça a desenvolverem iniciativas que permitam a conscientização dos pretendentes.

Um exemplo de práticas nessa área tem sido desenvolvida pela 1ª Vara da Infância e Juventude da Serra, região metropolitana do Espírito Santo. A juíza Gladys Pinheiro, titular daquela unidade judiciária, criou a Campanha de Incentivo à Adoção Tardia, que se encontra na segunda edição. Segundo a magistrada, o objetivo da iniciativa é derrubar os preconceitos dos pretendentes, estimulando-os a adotar crianças com mais de três anos.

A segunda edição da campanha teve início no último dia 17 de maio, com a inauguração de exposição fotográfica de pais com seus filhos adotivos, assim como um estande de atendimento em um conhecido shopping da região. A iniciativa também previu a realização de bate-papos para tirar as dúvidas dos interessados, assim como de uma caminhada pró-adoção pelas ruas da cidade.

“A maioria das nossas crianças tem mais de três anos ou são adolescentes, ou seja, tem um perfil distante do idealizado pelos mais de 700 pretendentes (inscritos no Espírito Santo). Nossa campanha visa, portanto, mudar a ideia de que criança mais velha vem com problemas. A idade não é um óbice”, explica Gladys.  

Os resultados obtidos até o momento são animadores. Nas duas edições da campanha, 214 pessoas procuraram o estande da 1ª Vara da Infância e Juventude de Serra disposto no shopping da cidade, a fim de obter mais informações sobre a adoção tardia. E pelo menos 10 processos relacionados à adoção de crianças acima de três anos de idade ou mesmo de adolescentes tiveram início desde a criação da campanha.

Eduarda Borges Bimbatto, assistente social daquela unidade judiciária, acompanha os encontros promovidos pelo projeto. Para ela, é quase impossível não se emocionar. Uma história que lhe chamou a atenção foi a de uma mulher que adotou uma jovem de 19 anos que permanecia no abrigo, apesar da maior idade, justamente por não ter para onde ir.

Outro caso que Eduarda faz questão de relatar é a de uma colega de profissão que trabalhava em uma das unidades de acolhimento do município. No abrigo, a mulher conheceu uma menina de 13 anos de idade, a quem passou a levar para a casa nos fins de semana. A formação de vínculos entre as duas foi inevitável. “Era uma menina que se recusava a ser adotada, pois ela nutria o sonho de voltar para a família biológica. Ela sempre saia com a assistente até que um dia não quis mais voltar para o abrigo. Costumamos dizer que quem fez a adoção, na verdade, foi a garota”, conta a assistente social. “Esse processo foi concluído no fim do ano”, diz, com alegria.

Giselle Souza
Agência CNJ de Notícias

* Atualizada às 18h31 de 27/5/2013